Há coisas sobre as quais tenho dificuldade em falar, talvez por serem tão difíceis de perceber ou até de acreditar. E então aí, geralmente, remeto-me ao silêncio.
Mas hoje andei pensativa sobre isto. Volta e meia, lá me vinha à cabeça o acidente de que tudo fala agora. Considerações à parte, o porquê de só se falar de uma das vítimas, quando existe mais uma em estado grave, tendo outra falecido, nem isso me incomoda agora.
Não existe morte mais estúpida, mais injustificada, mais evitável do que as provocadas pelos acidentes de viação. E não existe, de facto, sentimento de impotência e revolta maior quando, de repente, percebemos que a pessoa que estava connosco há uns minutos, deixou de estar. Há pessoas que são verdadeiras assassinas com um carro nas mãos, têm uma verdadeira arma nas mãos, ali à sua disposição, com o poder unilateral de mudar a vida de uns quantos.
Além da irresponsabilidade em tudo isto - conduzir sem cinto principalmente àquela velocidade é duma irresponsabilidade inqualificável e abominável - mais do que a estupidez de tudo isto, há uma coisa que me faz pensar muito: uma coisa é quando existe uma situação de doença, quando existe um quadro clínico definido em que nos permite saber com antecedência que há uma situação de perigo, outra coisa são situações como esta, que ninguém espera, que todos pensamos que só acontecem aos outros, que a mim não até "porque eu nunca tive nenhum acidente, não é?". Quando de repente, a outra pessoa deixa de existir para podermos dizer tudo aquilo que não dissemos. Quando, de repente, a outra pessoa deixa de existir para podermos dizer que, afinal, tínhamos tanto ainda para conversar, tanto para viver e que tudo poderia ter sido diferente.
E, aposto que, neste caso, se ele pudesse efectivamente dizer alguma coisa, teria como um dos últimos pedidos que chamassem a Rita, deixaria o orgulho todo de lado e diria tudo o que, por estupidez, não quis dizer durante muito tempo.
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