sábado, 9 de abril de 2011

Assumir a futilidade?

"Saiu da boca da jornalista já carregada de preconceito, como se ter um lado fútil fosse, provavelmente, a pior coisa que nos pode acontecer nesta vida, Deus-nos-livre-e-guarde. Aparentemente, só devemos ter na cabeça assuntos de alto relevo para a humanidade. E tudo o que não passe por economia, política ou filmes de Godard, então é fútil e não interessa. Pois, tenho muita pena. Tenho um lado fútil na minha vida, e se isso incomoda muita gente, é para o lado que durmo melhor e mais aconchegadinha. Eu sei que é uma tristeza de todo o tamanho gostar de sapatos e roupa bonita, de ir a spas e de me enfiar numa avião sempre que posso (haja tempo e dinheiro), quando o que eu devia era estar fechada em casa a desenvolver grandes teorias sobre a existência humana, mas que fazer? Deu-me para isto, e desconfio que não há cura que me resolva esta doença. O que verdadeiramente chateia as pessoas, tenho para mim, é que uma pessoa goste de sapatos mas também goste de ler. Que goste de vestidos mas também esteja atenta ao que se passa no mundo. Que passe a vida nas compras mas que também tenha dois dedos de testa. Toma-se a parte pelo todo porque, para muito boa gente, não é possível ter-se só um lado fútil. Não, se gosta de futilidades, então é fútil por completo e acabou-se. Espeta-se-lhe com o rótulo de tontinha, porque é demais assumir (e perceber) que uma mulher possa ser feminina e inteligente ao mesmo tempo (oh, grande heresia!). Pois é. Mas eu acho (e sei) que sou as duas coisas. Não abro mão das unhas pintadas, como não abro mão das notícias. E se ambas podem coexistir pacificamente no mesmo mundo, porque é que tenho de optar?"

Ana Garcia Martins

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